Quase isto ou quase aquilo: o charme de Go, Jac e Teresa. Frederico Morais, 1985

Na parede do fundo da Petite Galerie está pendurado um quadro de Teresa Berlinck no qual ela descreve uma cena perfeitamente banal, doméstica, quotidiana: alguém diante do aparelho de televisão. Resquícios do realismo pop reciclado pela pintura dos anos 80. Crueza de desenho associado ao emprego de tinta industrial sobre o papel, o que provoca um certo incômodo visual ao mesmo tempo que atrai a mão do espectador. A televisão, este totem da vida moderna, ocupa o centro do quadro, mantendo o telespectador imobilizado no sofá. Á primeira vista, tudo se resume aí neste banal retrato do quotidiano moderno e urbano. Porém, o detalhe significativo está além do vídeo, no alto: a metade de uma tela, cujo autor, é, sem dúvida, José Roberto Aguilar.

Este detalhe permite uma dupla leitura. A primeira diz respeito ao próprio embate (ou um diálogo, certamente tenso, mas enriquecedor) entre a cultura de massa e/ou indústria cultural e outras formas mais refinadas ou sofisticadas da cultura visual, a pintura, por exemplo. Ocorre que na sociedade moderna, o que está à nossa mão, diante de nossos olhos, é esta densa vegetação de eletrodomésticos, a parafernália de mídias eletrônicas, que exercem uma influência fortíssima no nosso modo de ser e de agir, sobretudo, nos jovens. Para Teresa, como para Go e Jac Leirner, as três expondo neste momento na Petite Galerie, o rock deve ter tido uma influência em sua formação visual bem maior ou bem mais profunda que as aulas da Faculdade de Artes Plásticas da Fundação Armando Álvares Penteado, em São Paulo, onde residem. Da mesma maneira, o graffiti de rua é, por vezes, mais excitante visualmente do que a pintura bem comportada dos museus e galerias.

A segunda leitura é a homenagem, que, através de Teresa, as três prestam a Aguilar, que as apresenta nesta sua primeira investida no circuito carioca. Roqueiras, as três tiveram contatos com Aguilar e sua Banda Performática. E Aguilar, como se sabe, é um dos primeiros, no Brasil (isto desde os anos 60), a usar a linguagem do graffiti nos seus quadros que são um jorro delirante de imagens ou de rabiscos, às vezes citações de Oswald de Andrade ou Bukowski. A citação, confundindo-se com a homenagem, é um lugar comum na produção contemporânea, que tem, na própria história da arte, seu jardim ou dicionário de formas.

Go, por exemplo, mais tímida e intimista, talvez até mais conservadora na sua linguagem, faz uso do grafismo, que tendo sido moda aí pelos anos 50, à época do Tachismo, retorna agora, quando se parte para uma espécie de neoinformalismo. Go cita um poeta, Edgar Braga, faz trocadilhos verbais, transcreve longos trechos de seus autores preferidos, mas, no final, não é o texto o que conta, mas a palavra enquanto ícone, enquanto massa, enquanto jogo de sombras e luzes, de fundo e superfície. Agora, por exemplo, encena caligrafias orientais, mas o lado meio Dada de sua proposta corta qualquer pretensão espiritualista, que sempre acompanha a arte dos orientais, ou pelo menos é isso que os ocidentais sempre imaginam encontrar num caligrama ou kakemono, o poder da síntese, a precisão do gesto, etc. É de uma maneira quase debochada que ela enfrenta essa tradição.

Aliás, é esse quase, que vai marcar a criação de Jac, talvez a mais refinada do trio, já que tem a arte no sangue. Os Leirner, desde os anos 50, ou mesmo antes, comandam uma boa parte da arte brasileira: são mecenas, marchands, críticos, colecionadores e, sobretudo, artistas. Seu pai, por exemplo, é um importante colecionador, cuja especialidade é arte construtiva dos anos 50. E Jac Leirner, com apenas 23 anos, é quase uma artista construtiva, quase uma artista conceitual. Um dos seus objetos chama-se, aliás, sintomaticamente, “Quase quadrado”, uma espécie de Waltercio Caldas fora do esquadro, meio desajeitado, um anjo torto na parede. Este quase, claro, não é incompetência ou medo de um rótulo, é refinamento, é a componente intelectual, o Dada que põe em tudo o que faz. Fruto de um saber (visual, mais que livresco) que é ao mesmo tempo uma herança familiar. Por isso ela brinca com o branco da parede, com a inexatidão das linhas e formas geométricas, com banalíssimos materiais industriais, borracha, plástico, com eles armando bandeiras ou pirâmides, tudo ficando no plano das virtualidades e ambigüidades visuais. Aliás, Go tem também a arte no sangue, sendo, apesar da idade, 24, tia de Tunga, crescendo em meio a quadros de Guignard.

O que vemos na Petite Galerie não é uma coletiva, mas três individuais simultâneas. São três personalidades diferentes. É a diferença que as une, porém, em pelo menos um ponto elas se encontram: na prevalência de um certo grafismo que envolve suas criações. Há um traço negro contornando as pinturas de Teresa, as construções de Jac são um traço no espaço, quase tridimensonais, enquanto a linha é a essência mesma do trabalho de Go. Têm, ainda, o gosto pela citação e este quase (Go é quase pattern, Jac é quase construtiva, Teresa é quase o que?, não sei é quase-quase) que faz o charme do pós-modernismo. Finalmente, por sua extrema juventude, são quase-artistas, estão se formando, crescendo. É só esperar.

Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 25 de março de 1985