Heranças. Ana Luisa Lima, 2007

Ana Luisa Lima

Por certo, a menor retomada da atenção me convence
de que esse outro que me invade é todo feito de minha substância: suas
cores, sua dor, seu mundo, precisamente enquanto seus, como os
conceberia eu senão a partir das cores que vejo, das dores que tive, do
mundo em que vivo? Pelo menos, meu mundo privado deixou de ser
apenas meu; é, agora, instrumento manejado pelo outro, dimensão de uma
vida generalizada que se enxertou na minha.

Maurice Merleau-Ponty em O Visível e o Invisível.

Penso em curadoria como a possibilidade de por em um só lugar várias acepções de uma mesma “palavra”. São “mundos privados” que se interseccionam em algum ponto – através da forma ou tema (relações semânticas). É uma maneira articulada de fazer alguém ver de uma mesma janela diversas paisagens. O grupo Bola de Fogo de São Paulo, com a curadoria de Teresa Berlinck e Rosângela Dorazio, inicia o Projeto Amplificadores com Herança, e eis o que pude ver por tal janela; ou, o que pude ler através das várias acepções que as curadoras trouxeram dessa palavra:

s. f.,
aquilo que se herda

Nino e Rita Cais

Com vozes gentis e melodiosas os seus desenhos dialogam. Mãe e filho conversam através de uma mesma linguagem com timbres de vozes diferentes. Enquanto Nino traz um traço limpo, um desenho simplificado – o que me parece ser uma tendência contemporânea –, Rita nos apresenta um desenho um pouco mais grave quanto ao traço. Ela deixa mais clara sua expressão em cada linha. No entanto, é em Nino que se pode ver uma maior carga simbólica. A gravidade nele aparece em conteúdo, enquanto em Rita na composição formal.

Quase se pode ouvir entre eles uma conversa daquelas impregnadas de sugestões maternas e exclamações típicas da condição de filho. Como toda mãe, Rita sonha que ele permaneça bonito, leve, e cheio de liberdade. Seja como pássaros que voam longe, mas que sempre podem voltar para se salvaguardar debaixo da árvore frondosa – a casa materna a que inequivocamente (ainda que tendo construído outra) os filhos chamam lar.

Nino como todo filho inquieto fala de suas tentativas de voos a partir dos elementos herdados de casa. Mas é que o sonho de mãe nunca é como a realidade do filho. Por vezes com tanta tralha atado ao corpo, as possibilidades de voos soam como uma trapaça. Sobe-se em latas, veste-se de frágeis asas, recortam- se pássaros de papéis, mas o corpo é real demais para…

Os desenhos de Nino e Rita Cais: duas gerações: a herança poética.

Silvio Tavares

Cartas e retratos sempre soam íntimos, nem por isso podemos dizer que esse é um trabalho intrinsecamente intimista. Acontece que o fluxo de pensamento do trabalho não está para dentro da obra (e de Silvio Tavares), mas para fora. É um trabalho que sutilmente critica o sistema/mercado de arte.

As cartas da mãe Dona Maria Brígida (pseudônimo do próprio Silvio) em nome do filho artista não poderiam ser mais sinceras. Indagações do que seria a tal arte contemporânea já que não se trata mais de “uma pintura ou escultura bonitas”, e dos mecanismos de legitimação de um artista são postas, com tanta humildade e doçura, e acabam por serem mais contundentes do que a maioria dos discursos agressivos dos ditos “marginais da arte”.

O trabalho é pouco convidativo do ponto de vista contemplativo. As imagens em si não nos incitam a algum deslumbre nem pelo resultado plástico, nem pela novidade no processo: pôster, a tentativa de repetição da foto de infância, sobreposição de imagens, tornaram-se um clichê desde que a câmera digital e a ferramenta Photoshop possibilitaram a qualquer um as mesmas “investigações” a que Dona Brígida se propôs.

O que é arte? As fotografias de Dona Maria Brígida não são? Essa é mais uma grande interrogação que Silvio Tavares nos propõe. Como perceber arte se há essa linha tênue entre arte e vida? Há quem insista em afirmar que a arte surge no momento que o artista diz as palavras mágicas: – É arte, porque eu assim o disse. Mas é preciso pensar que as reflexões Duchampianas são herança e não fórmula.

Pergunto-me se também não é a obra que instaura o artista. Se nós partirmos do pressuposto, ainda de um conceito tão atual, de que artista precisa de uma trajetória para se legitimar como tal, coloca-se em xeque a possibilidade da existência da obra-prima, ou obra única (por quê, não?).

Não raro se vê por aí obras que têm suas inteligências deslocadas para a trajetória do artista e, quando acontece coisa pior, para as palavras bem engendradas de um curador e/ou crítico de arte. Não é à toa que se dê tanto peso às palavras de um crítico. Dessa forma, este não só adquire “poderes” de legitimar o artista, mas, por consequência, a existência da obra. As obras de arte já não existem per si?

Temo que esse tipo de discurso nos prive da possibilidade de depararmo-nos com obras inteligentes, e bastante significativas, de artistas sem trajetórias. Que grande lacuna seria para a cinematografia brasileira se proclamada a ilegitimidade de Mário Peixoto. Ora, ele foi cineasta de uma obra só. Se Limite não existisse por si, duvido muito que por esses dias estivesse preenchendo a tela e os olhares de muitos em Cannes.

s. f.,
legado;

Teresa Berlinck

Réquiem é uma poesia visual. O que Cecília Meireles é capaz de nos dizer com palavras Teresa nos fala de perda familiar e memória com imagens. São cartas que precisam ser percebidas antes de lidas. A poesia corre pequenos vasos, artérias e veias até se tornar qualquer coisa que se possa dizer com palavra.

As dez cartas são como se fossem instâncias da sua memória: uma parte abstrata; outra figurativa quase desvanecendo; e ainda, outra que salta clara, com elementos soltos e identificáveis. Eis a construção delicada de uma bela metáfora. É a presença de sua avó ali entranhada.

O legado de uma existência que foi incorporada.

Rosângela Djou Dorazio

Eu sempre acreditei que boa parte do nosso saudosismo se dava porque as lembranças nos faziam certos de um algo imutável. Mas não. Nossa lembrança não é uma reconstrução literal dos eventos passados, mas um algo fluido que se modifica, inclusive, a partir de informações do presente.

Assim, o lugar do passado ora nos parece pacifico, ora assombrado, justamente porque recordar também pode significar reviver um fato, ou experiência, que jamais aconteceu.

Memórias da Infância ou Lendas de Família nos transporta para esse mundo pouquíssimo compreendido do nosso imaginário. Fala do quanto somos constituídos de coisas reais e irreais, melhor dizendo, factuais e ideais. Nossa memória é como aquelas imagens subtraídas, criadas por Rosângela Dorazio. As lembranças são recortes, são lacunas que podem ser preenchidas por palavras sugeridas, e, no entanto, ganham dentro de nós o valor de verdade – “não vi nem tava lá.(…) E é verdade ele disse que foi assim.”

O fato é que nossa herança familiar (enquanto imaginário) não advém apenas da lembrança de paisagens e objetos biografados, mas também, dessas histórias ouvidas em que a verossimilhança pouco importa, e, no entanto, também nos servem de referencial – fazem parte do nosso estoque simbólico.

s. f.,
posse;

Mônica Schoenacker

A herança da história da arte é pressuposta em toda e qualquer obra. Por mais inédita que uma obra de arte venha a ser, intrinsecamente, ela é um ponto que se aproxima, ou se afasta, do que já foi feito. Trata-se de uma realidade inescapável. Por isso é que a força da palavra proposta pela curadoria aparece nessa obra de maneira mais diluída. Pois, o trabalho de Mônica Schoenacker só se aproxima das outras pela genealogia da história da arte.

A despeito disso, Análise Combinatória sendo herança da Pop Art diz por si só que é legítima enquanto arte contemporânea. Não se trata de repetir técnicas, mas de usá-las em novos suportes capazes de agregar valores – forma que vira conteúdo.

A imagem das camas justapostas impressa nas persianas subverte a ideia do voyeur – que pressupõe a possibilidade de ver a intimidade de um casal através da janela quando as persianas abertas, e não como aparecem nesse trabalho: fechadas.

Mônica toma posse das técnicas de serigrafia e faz uso dessas com maestria.

Jur.,
bens, direitos ou obrigações
transmitidos por sucessão ou por
disposição testamentária.

Adalgisa Campos

Desenho sobre documentos, talvez, seja o trabalho que mais se justifica por ser parte dessa curadoria. A palavra herança recai imediatamente sobre o elemento compositor da obra: documentos herdados do pai da artista.

Dos trabalhos apresentados, esse me pareceu o menos poético. Consigo entender que há uma simbologia vinda dos documentos herdados, mas não me é possível absorver como aquele ajuntamento de documentos instala uma obra de arte nos termos de Heidegger.

A ação da artista sobre aqueles documentos não se individualiza (não a identifica) e não cria coisa absolutamente nova – como se dá na ação instauradora de José Rufino sobre esses mesmos suportes.

A obra de arte é, com efeito, uma coisa, uma coisa fabricada,
mas ela diz ainda algo de diferente do que a simples coisa é.
A obra dá publicamente a conhecer outra coisa, revela-nos
outra coisa; ela é alegoria. Á coisa fabricada reúne-se ainda,
na obra de arte, algo de outro. (…) A obra é símbolo.

Martin Heidegger em A origem da obra de arte.

Acredito que a instalação enquanto obra de Desenho sobre documento realmente se efetiva apenas no quando da performance Publicação de Arquivo. É naquele instante que os documentos modificados ganham vida quando mortos, diria melhor, emudecidos. O diálogo formado no ato performático cria uma alegoria.

Porém, desenhados e dispostos na parede de uma instituição, os documentos herdados de Adalgisa não vão além da literalidade. Eles não nos levam a um mundo novo. Nossa jornada se inicia e se encerra ali – sem direito a devaneio – na parede dura.

s. f.,
herdança;

Este, talvez, tenha sido um dos textos mais difíceis de escrever até então. Em primeiro lugar, porque, assim como a arte contemporânea, a crítica existe num nimbo de não se saber dentro de um determinado lugar, uma forma, um para quem, ou para quê.

Em segundo, permiti ser refém da angústia gerada pela tragédia de ter dado, inicialmente, demasiada importância as minhas próprias palavras. Não quero acreditar que é a crítica que legitima o artista ou a obra, mas, outros mecanismos mais complexos.

No meu pensar: a crítica não é a verdade das obras, porém, uma fala que permite, junto a estas, a possibilidade de construções de subjetividades a partir de reflexões apontadas. O meu medo é que, no meio dessa esquizofrenia da contemporaneidade, arte e entretenimento se confundam – e uma vez confundida, a arte perde sua razão de ser.

Uma das instâncias da arte é quando esta estabelece um diálogo. Ela edifica a possibilidade de alguém se ver capaz de uma (re)invenção de si a partir de si mesmo. Um autêntico diálogo me conduz a pensamentos de que eu não me acreditava, de que eu não era capaz, e às vezes sinto-me seguido num caminho que eu próprio desenhava e que meu discurso, relançado por outrem, está abrindo para mim (Merleau-Ponty).

Arte é herança porque bem cultural – é produção de conhecimento, de sentidos, de símbolos. Por isso mesmo que um texto crítico por mais abrangente e analítico que seja não prescinde a obra. E aqui cabe dizer que o texto só me foi possível escrever porque tendo me debruçado por sobre os trabalhos – nessa ida e volta (de mim para mim) -, estes se tornaram parte de minha subjetividade. De uma curadoria que ricamente soube articular acepc;oes de uma mesma palavra, fiz-me herdeira.

Texto
Projeto Jovem Crítica – Museu Murillo La Greca, 2007.
Ana Luisa Lima é graduanda em Licenciatura em Artes Plasticas UFPE
e editora da revista Tatuí.